Home / Aprendendo com as falhas / Lições aprendidas da startup Weblogger Brasil: Perdemos a competitividade, chegou a hora de desligar os servidores.
Startup Weblogger Brasil
Startup Weblogger Brasil

Lições aprendidas da startup Weblogger Brasil: Perdemos a competitividade, chegou a hora de desligar os servidores.

Em 2001, lancei com mais 3 amigos, uma startup chamada Weblogger Brasil, o primeiro serviço brasileiro e gratuito, para a criação e hospedagem de blogs na internet. A paixão pela tecnologia e pelo empreendedorismo afloravam no time, vínhamos trabalhando juntos desde 1997 em projetos de internet e sentíamos que era o momento de dar um passo a frente. Era o período pós “bolha da internet” nos Estados Unidos, mas com uma grande perspectiva de crescimento da internet no Brasil. O acesso ainda era limitado, mas as empresas de banda larga e acesso discado estavam em expansão dos serviços.

Éramos em 4 co-fundadores: 3 programadores e 1 designer gráfico de internet. As habilidades complementares e a sinergia do trabalho em equipe, ajudaram a criar a primeira versão em 3 meses. Foram muitas madrugadas codificando e testando, pois trabalhávamos durante o horário de expediente normal. Com pouquíssimo dinheiro para investir, decidimos utilizar tecnologia de código aberto, assim foi desenvolvido utilizando HTML, CSS, JavaScript e PHP, com banco de dados MySQL e sistema operacional Linux. Como infra-estrutura, utilizamos um computador pessoal e uma conexão residencial de internet de 128 Kbps. Nessa época não existiam os serviços em nuvem e os custos de infra-estrutura eram altíssimos.

Em uma madrugada fria de maio de 2001, lançamos o serviço, em formato experimental para amigos. Com uma lista de 3.000 e-mails em mãos, sendo amigos, amigos dos amigos, conhecidos e alguns não conhecidos, enviamos o convite para conhecer o serviço. Foi uma ação instantânea, na mesma madrugada, dezenas de usuários já estavam criando seu blog e compartilhando os textos criados por e-mail. Após 7 dias, a nossa infra-estrutura não era mais suficiente para suportar os primeiros 5.000 usuários, começava aí uma jornada em busca de investimento para a sobrevivência do serviço.

Conversei com vários investidores nos 10 meses seguintes, mas nesse momento da história do empreendedorismo digital brasileiro e com período de pós “bolha da internet” nos Estados Unidos, poucos investidores estavam dispostos a investir dinheiro em negócios digitais. Nesse período, conseguimos aumentar a velocidade da conexão com a internet e adicionar servidores, dentro do limite de nossas economias e com recursos da publicidade vendida. Tínhamos atingido o “product/market fit”, porém o volume de usuários que se cadastravam de forma viral, dia após dia, tornava nosso serviço lento.

Não havia mais como esperar, assim, em maio de 2002, fechamos uma parceria com o portal Terra Networks. Com a parceria, começamos a operar com o endereço http://weblogger.terra.com.br, cendendo os direitos sobre nossos indicadores de audiência e compartilhando a receita. Em troca, passamos a hospedar nossos servidores no datacenter do parceiro e realizamos a transformação do site para tecnologia .NET, com bando de dados MS SQL Server, melhorando a disponibilidade e performance dos serviços, para os mais de 300.000 blogs ativos naquele momento. O Weblogger Brasil tornava-se um grande case para a Microsoft, no início da plataforma .NET.

Em 2004 criamos uma nova startup chamada eFocis.com. Uma solução online para envio e gerenciamento de campanhas de e-mail marketing, emergente das tecnologias desenvolvidas na startup Weblogger Brasil. Uma experiência incrível, com muitos desafios, inovando e aprendendo a cada dia, fazendo o que mais amávamos.

No mesmo ano atingimos 1 milhão de usuários. A startup Weblogger Brasil era um fenômeno viral, estava nos jornais, sites, revistas e na assinatura de blogueiros. Mas em 2005, com 1.3 milhões de usuários cadastrados, sendo apenas 50 mil ativos, inúmeras tentativas de recuperação da base de usuários, alto índice de perda de usuários, nenhuma rentabilidade, inúmeros processos judiciais contra o Weblogger Brasil, devido aos textos e fotos publicados pelos usuários e vários concorrentes crescendo, havíamos perdido competitividade e começávamos a realizar prejuízo financeiro. Assim, realizamos a saída do eForcis.com para investidores e decidimos voltar ao mercado de trabalho.

Mantendo o Weblogger Brasil com recursos próprios, sem receita e esgotados com o volume de processos judiciais recebidos, atingimos 1.5 milhões de usuários cadastrados em 2008, porém apenas 5 mil ativos. Foi quando decidimos finalmente comunicar os usuários e encerrar a operação.

Perder o foco no produto e no cliente é fatal para o negócio

Desde o primeiro dia de operação realizamos atualizações diárias de código, organizadas em correção de erros, melhorias de performance e novas funcionalidades. Para identificar erros e problemas de performance, trabalhávamos na mineração de dados dos arquivos de logs dos servidores e, para desenvolver novas funcionalidades criávamos interações com os usuários, tanto para priorizar, como testar e avaliar funcionalidades.

Seguimos esse processo de 2001 até 2004, quando então decidimos transformar a ferramenta de e-mail marketing da Weblogger Brasil, em um novo produto para oferecer ao mercado. Assim, criamos uma nova startup chamada eForcis.com. Sem conseguir um investidor e com o Weblogger Brasil testando novas oportunidades de monetização, decidimos compartilhar a equipe técnica e seguir em frente.

Nos meses seguintes, as demandas da Weblogger Brasil passaram a competir com as demandas da eForcis.com, onde as atualizações de código, tanto de correção como evolução, passaram de diárias para quinzenais. Com capacidade de entrega limitada, nosso time também reduziu o número de interações com os usuários, reduzindo assim o volume de oportunidades de desenvolvimento do produto.

Com 1 milhão de usuários em 2004, mas perdendo o foco na evolução do produto e reduzindo as interações com os usuários, começamos a identificar que a taxa de retenção estava diminuindo semana após semana. Como causa principal, estava a falta de solução para problemas críticos de código e de infra-estrutura, não priorizados, pois haviam diversas entregas de vendas da eForcis.com, que a equipe técnica compartilhada estava envolvida.

Perder o foco no usuário e no produto Weblogger Brasil, foi fatal para o negócio. Os inúmeros problemas técnicos e a lentidão para solucioná-los manchou a reputação do nosso serviço e passamos a ser duramente criticados pela comunidade. Assim, os usuários mais fiéis e assinantes migraram seus blogs para os concorrentes que estavam surgindo e passamos a perder a receita vinda do serviço Weblogger Plus, e consequentemente de publicidade.

Identifique o quanto antes as capacidades e habilidades necessárias para o sucesso da startup

Começamos a nossa jornada utilizando uma infra-estrutura mínima para testar o Weblogger Brasil, com uma lista de 3.000 e-mails. Não esperávamos que a capacidade viral de compartilhar textos, poderia requerer uma infra-estrutura maior e melhor, em tão curto período de tempo. Demoramos um ano para estabilizar nossa capacidade de infra-estrutura, com um novo parceiro, porém criamos um indicador de capacidade requerida por mil usuários, que nos direcionou nos anos seguintes. Nesse cenário, um processo para teste da Weblogger Brasil em formato beta privado, seria mais recomendado. Poderíamos liberar convites periódicos, para os usuários cadastrados convidar seus amigos de forma progressiva.

Contratar um especialista responsável pela comunidade de blogs, com certeza era uma habilidade necessária para o sucesso da Weblogger Brasil. Não conseguimos identificar a tempo a necessidade de isolar essa função. Acabamos compartilhando internamente as responsabilidades. Com um profissional dedicado, teríamos gerado um resultado em escala mais expressivo no desempenho dessa função.

Erre rápido e aprenda mais rápido ainda

Quando começamos uma startup, a única certeza que temos é que iremos falhar em algum momento. A falha é o resultado importante, de um processo de teste de uma hipótese, assim como as lições que aprendemos durante esse processo. Nossas hipóteses de teste, eram baseadas em métricas e feedbacks que recebíamos dos usuários e dos clientes anunciantes, além de acompanhar como o mercado estava evoluindo.

Também tínhamos indicadores básicos da operação: visitantes, conversão de visitantes em usuários cadastrados, número de usuários ativos, número de usuários pagantes, número de usuários influentes, número de blogs criados, número de textos publicados e número de comentários em textos, agrupados de forma semanal. Qualquer nova funcionalidade ou melhoria, deveria influenciar positivamente ao menos um desses indicadores, no período de 7 dias.

A cada atualização diária de código, acompanhávamos por 7 dias os indicadores básicos da operação, em conjunto com o feedback dos usuários. Assim, tínhamos uma avaliação quantitativa e qualitativa, para avaliar se a nova funcionalidade realmente contribuiu para a evolução do serviço.

Um dos erros não previstos em nosso modelo de negócio e que demoramos muito para aprender, foi ser citado em processos judiciais, devido a liberdade de expressão de nossos usuários. Na prática isso significa que, um usuário pode citar alguém em seu blog, a pessoa citada se sente ofendida e decide processar o Weblogger Brasil. Nesse cenário, demoramos para criar um canal exclusivo para denúncias e métodos para auto-detecção de textos com risco, assim, recebemos inúmeros processos judiciais. Com isso, nossos custos operacionais aumentaram e passamos a conviver com riscos, em caso de perda de processos.

Faça parte de um ecossistema de startups, compartilhe conhecimento e aprenda com ele

Participar de eventos e encontros para compartilhar e aprender, com lições e experiências da jornada empreendedora, é fundamental na evolução de uma startup e do empreendedor. Buscar estudos de caso, parcerias, integração com outros empreendedores e organizações, suporte de mentores, assim como apresentações para investidores, é uma ótima oportunidade para obter orientações sobre suas decisões, evolução e visão da startup, aprendendo assim, com cada cenário discutido.

Nosso time não vinha de universidades de ponta, com foco em empreendedorismo ou administração. Também era um período onde as informações na internet, estudos de caso, eventos e livros sobre o tema, eram limitados e restritos. Tomávamos decisões sobre o modelo de negócio baseado em nossas premissas, conhecimentos e experimentos. Esse formato de trabalho reduziu a nossa visão sobre as oportunidades e necessidades, sendo mais uma lição para perda de competitividade.

Não tínhamos uma grande rede contatos, assim, acabamos não encontrando os caminhos necessários, para buscar orientações de empreendedores mais experientes e redes de empreendedores. Não tenho dúvidas que esse envolvimento, poderia ter ajudado a criar uma visão mais consistente para o nosso negócio e suportado a tomada de decisões com mais qualidade.

Teste continuamente o seu modelo de negócio e sua capacidade de gerar receita

Uma vez que a capacidade viral da Welogger Brasil era altíssima e tínhamos limitação de orçamento, acabamos não investindo nos canais para aquisição de novos usuários. De 2001 à 2004, tinhamos mais de 1.000 novos usuários em média por dia, assim, focamos os primeiros experimentos na capacidade de gerar receita, com a expectativa de conseguir recursos financeiros para criar novos experimentos, que ajudassem a ganhar tração. Testamos diferentes modelos para gerar receita, focado em três clientes: agências de publicidade, usuários e grandes empresas.

Para agências de publicidade, testamos formatos de mídia alternativa, blogs temáticos patrocinados e ações de e-mail marketing. Baseados em indicadores de performance, conseguimos mostrar bom resultado para as áreas de mídia, porém era um momento de orçamento limitado das empresas para a internet. Mesmo assim, esse modelo acabou sendo a principal fonte de receita até 2004.

Com os usuários, testamos em 2003, um pacote de assinatura, com novas funcionalidades, chamado Weblogger Plus. Em nosso melhor momento chegamos a ter 0,005% de usuários assinantes, porém a perda de foco no produto e os recorrentes problemas técnicos, fizeram esse número cair drasticamente e de forma rápida no final de 2004.

Para grandes empresas, testamos o modelo de blog corporativo. Era um formato onde a empresa pagaria uma mensalidade, e teria um sistema de blog privado como serviço, para seus colaboradores, com foco na gestão do conhecimento e colaboração em sua cadeia produtiva. Não conseguimos realizar vendas nesse modelo. A princípio, era um modelo novo de trabalho e poucas empresas estavam preparadas para uma adpatação de tecnologia e processo.

Uma das vertentes que não testamos e que julgo essencial, foi o desenvolvimento de parcerias, que gerassem valor para a cadeia produtiva da Weblogger Brasil. Devido ao foco muito técnico da equipe, infelizmente, não tivemos experiência para mapear parceiros e criar experimentos, assim, perdemos a oportunidade de gerar novas capacidades para o negócio.

Tenha um plano de saída consistente

Com 1 milhão de usuários em 2004, a Weblogger Brasil era um fenômeno viral, estava nos jornais, sites, revistas e na assinatura de blogueiros. Tivemos algumas empresas de internet interessadas na compra, mas sentíamos que não era o momento. Nosso relacionamento com a Weblogger Brasil era de pai e filho. O desejo era evoluir o modelo de negócio e continuar com ele eternamente.

Com o não sobre a venda, as empresas interessadas criaram seu próprio sistema de blog, investiram pesado em canais de aquisição de usuários. No mesmo período, esses e outros sistemas de blogs, desenvolveram ferramentas para migração de blogs da Weblogger Brasil para o novo serviço. Não avaliando esses cenários e com os problemas técnicos que estávamos passando, começamos a perder usuários de forma exponencial.

A partir da avaliação de possíveis cenários futuros e de indicadores operacionais, estávamos no melhor momento para realizar a saída do empreendimento. Assim, não ter vinculo emocional com o projeto, ter um plano de saída consistente, buscar um mentor externo ou um conselho, tomar decisões com base em indicadores e simulação de cenários futuros, são fatores essenciais.

Veja Também

Aprendizado Exponencial

Aprendizado exponencial como um diferencial para empreender em condições de extrema incerteza

Uma startup possui diferentes estágios, que vão desde a idealização do negócio, passando pela aderência …

Adicionar um comentário

Este e-mail já foi cadastrado. Usa forma de entrada ou introduze outro.

Digitou login ou senha incorreta

Desculpe, para comentar precisa de entrar no site.

6 comentários

por cronologia
por ranking primeiro novos por cronologia
1

Muito bom esse relato Iglá, parabéns, independente de tudo vocês tiveram um papel importante no ecosistema brasileiro e criação de conteúdo, senão fosse por vocês não teria surgido os sistemas concorrentes e não teriam sido evoluídos da forma que é hoje, somente que te conhece profissionalmente sabe o profissional que você se tornou, muito sucesso e ótimo trabalho nesse projeto novo. 😀

2

Muito obrigado Gustavo!!!! Continuamos na luta .. aprendizado e resiliência .. 😉

3

Excelente Iglá. Particularmente o que me chamou a atenção foi o "plano de saída", achei esse ponto muito importante, ainda mais dado o exemplo vivenciado por vocês.

4

Showww Ulisses!!! É realmente uma parte muito importante que precisa ser bem estudada .. 🙂

5

Foi meu primeiro emprego! Foi o início da minha vida profissional em TI e admito, vocês foram sensacionais.

Me ensinaram muita coisa nesta plataforma. Eu era o estagiário de um time campeão. Hoje sou gestor de TI formado/Pós Graduado e com equipes multidisciplinares.

Sempre me espelhei em vocês e principalmente em VC Iglá!

Pra mim, este projeto deu certo sim! Valeu a pena todo o esforço de vocês, dedicação, porém as questões financeiras de se manter empresário e outros em nosso país são difíceis.(Impostos, Juros, Crédito e outros)

Quem sabe no futuro essa equipe volta a se unir e pensar em algo além/inovador.. algo que ainda não foi explorado, mas agora com toda maturidade e Know-how adquiridos.

6

Tudo bem Pedro? Obrigadão pelas palavras! É isso ai, a jornada continua 😉 vc é um cara de sucesso! Continue a contar sempre comigo e sucesso sempre!! Abração